A importância de Renascer após a operação

A qualidade de vida de um ostomizado não depende apenas do tratamento médico.

Por: Amanda Monteiro

Aos poucos a sala vai enchendo, pessoas aparentemente em perfeitas condições de saúde. Reveem amigos, a maioria se acomoda no fundo da sala, alguns acanhados com a presença da câmera, sem entender o que de novo acontecia. E é ali que os ostomizado se reúnem uma vez por mês, na associação Renascer.

Em Cascavel, a associação Renascer, auxilia os ostomizados para que eles tenham melhor qualidade de vida e foi uma ideia trazida de São Paulo pelo doutor Univaldo Mitsuo Sagae, médico coloproctologista, que fundou a associação junto com Wilse Lombardi Marques, presidente fundadora da associação Renascer, Núcleo Regional dos Ostomizados do Oeste do Paraná.

 Ostomia é um procedimento cirúrgico que liga um órgão ao exterior do corpo, isso se torna necessário por alguns motivos como por exemplo doenças congênitas, por lesão com arma branca ou arma de fogo e também por doenças inflamatórias. Wilse possui uma ostomia intestinal. Um caso específico que se chama ileostomia, que é retirada a parte do intestino fino, e não fará todo o percurso para fazer o bolo fecal, por isso as fezes são líquidas e mais corrosivas. Mas também existe a colostomia, que foi o caso do atual presidente Jair Bolsonaro. No dia seis de setembro de 2018, Bolsonaro sofreu um atentado durante a campanha em Minas Gerais. Ele levou uma facada na barriga, e precisou usar uma bolsa de colostomia durante sua recuperação.

 As ostomias podem ser temporárias como a de Bolsonaro ou definitivas como a de Wilse. Você já ouviu a expressão “15 minutos de fama”? Pois foi mais ou menos o que aconteceu com esse assunto. O caso de ostomia ficou em evidencia por um curto espaço de tempo, por envolver uma pessoa política, mas já caiu no esquecimento. “É fácil da pessoa, que já ouviu falar um dia mas não conviveu esquecer, só quem não esquece é quem é ostomizado, familiares e amigos mais próximos”, afirma Wilse.

 A ideia da associação veio do doutor Sagae, ele estudou em São Paulo, no Hospital das Clínicas, lá teve a oportunidade de conhecer a associação paulista, então naquela época ele sentiu o desejo de poder fazer um trabalho como aquele. “Quando ele veio para Cascavel, deu um ano mais ou menos, ele me conheceu”, diz Wilse, “que foi a época que descobriu a minha doença, aí me encaminhou para São Paulo e eu conheci as associações lá. Quando eu voltei, nós começamos a nos reunir.” De acordo com doutor Sagae “a preocupação de criar essa associação, dar esse atendimento, é uma função do médico responsável, comprometido com a sociedade e com seu país, porque nós formamos um cidadão produtivo e independente, porque isso também alivia o governo. Imagina a gente ter que sustentar um aposentado, e esse cidadão, se bem cuidado, vai ser um trabalhador e pagador de impostos.”

Reunião no Núcleo dia 03/04/2019

No início as reuniões era com dois ou três pacientes no máximo, hoje contam com 325 ostomizados. A associação recebe material da 10ª regional de saúde que atende 25 municípios, incluindo Cascavel, também contam com uma enfermeira e uma secretária cedidas pela prefeitura, as despesas de água, luz e outras despesas fixas são responsabilidade da própria associação, “então na verdade a gente vive de doações dos próprios pacientes e comunidade” afirma Wilse.

Os próprios pacientes gostam de enfatizar a importância da associação. “Ninguém quer aceitar isso no começo, mas com a convivência aqui, a gente conseguiu aceitar. Sabendo que não é só a gente” comenta Airton Tesk.

Em casos como esses, principalmente quando a ostomia é definitiva, a recuperação acontece mais rápido quando o paciente se sente acolhido, essa é a função da associação. Mas a família também tem papel importante. Eva Antunes Sitko Dias, que tem a mãe ostomizada desde dezembro de 2018, diz “Hoje foi a primeira vez que nós viemos na reunião, mamãe ainda não veio, mas com certeza ela vai vir ainda, ela está meio restrita ainda, porque de dezembro até agora passou pouco tempo, mas a gente viu que até agora ela já recuperou bastante, a cada dia ela está melhorando. Ela aceitou bem rápido, porque ela tinha muita dor.

A enfermeira com especialização em estomaterapia, Lorena Moraes Goetem, também fala sobre a importância de um tratamento mais humano com os pacientes, que eles podem encontrar na associação. “E todas as pessoas que fazem uma cirurgia, precisam desse suporte, de preferência antes de fazer essa cirurgia, se ele tiver a oportunidade de conhecer, a recuperação é muito melhor. A associação faz parte da vida de muita gente e é uma segunda família, porque eles encontram o apoio que necessitam e além do material de boa qualidade.”

A falta de conhecimento sobre esse assunto, inclusive por parte dos médicos, pode ser responsável por grande parte dos casos. Irene de Jesus Miranda, ostomizada há oito anos, relata que teve uma doença chamada retocolite hemorroidária,” o médico da minha cidade, não conhecia esse caso, me mandou para o HU, cheguei lá já desmaiando, então o médico que me atendeu fez uma colonoscopia e acabou diagnosticando o que eu tinha, eu perdi todo o intestino grosso e passei a usar a bolsa.”

Essa é a realidade de muitas pessoas, e muitos casos poderiam ser evitados se fosse um assunto mais falado, de acordo com Wilse, “Para evitar tantas ostomias, seria interessante as campanhas de prevenção dos cânceres de intestino. Então eu acho que seria uma situação de precaução para que não aconteça, mas se acontecer que a pessoa saiba. Então faltam políticas dessa área de saúde que faça a divulgação e a conscientização, tanto da precaução, para quando acontecer que a pessoa tenha ciência, mas infelizmente não é o que acontece.”

Doutor Sagae, que também é professor de medicina relata que “sempre quis dar aula, porque eu acho que a medicina não é só aplicar o seu conhecimento nos pacientes, eu acho que a gente também tem o dever de ensinar essa arte da medicina” e completa a enfermeira Lorena, “é a paixão, o amor que a gente tem pela enfermagem e pelo ser humano”.